A Truck, a CBA e o Facebook

A maior polêmica do automobilismo brasileiro nos últimos meses, talvez anos, está protocolarmente encerrada. Mesmo não tendo havido até agora nenhum comunicado oficial, sabe-se que a Confederação Brasileira de Automobilismo concordou em renovar, por mais uma temporada, o contrato com a empresa de Neusa Navarro Félix para promoção do Campeonato Brasileiro de Fórmula Truck. É o suficiente para dizer que a novela terminou, como afirmou o colega Américo Teixeira Júnior em seu Diário Motorsport? Não, não é como vejo. Pode-se sim, para validar o termo empregado pelo Américo, definir como uma novela as circunstâncias que levaram à renovação do contrato de promoção do campeonato. A situação chegou ao conhecimento público, o que deu margem para virar assunto de debates longos e inúteis nas redes sociais da internet.

Foi na tarde de 30 de janeiro que a CBA distribuiu comunicado informando que iria contratar empresa para promover e organizar o campeonato de caminhões – na nota, em ato falho, a entidade usou o nome “Fórmula Truck”, que pertence à Racing Truck, empresa que tem Neusa e os filhos como proprietários. A resposta veio na mesma moeda. Um comunicado emitido no dia seguinte, em que a direção da categoria frisou os direitos assegurados por registro sobre a marca “Fórmula Truck” e manifestou ainda estar lidando com a questão de filiação da categoria, uma vez que o calendário de etapas distribuído a equipes e à imprensa uma semana antes determinava a realização de etapas na Argentina e no Uruguai. “O campeonato deixou de ser brasileiro e passou a ser sul-americano”, concluía aquele trecho da nota. A Truck considerou passar a promover suas corridas através de uma liga e, uma vez tendo desistido disso, focou na possibilidade de ter o caráter desportivo do campeonato, agora sul-americano, gerido pela Codasur.

A chancela da Codasur, por protocolo, passaria também pela CBA. Trocando em miúdos, não haveria campeonato sem anuência da CBA, e esse passou a ser o foco, já correndo o início de fevereiro. A Truck enviou no dia 3 a papelada protocolar para participar da, digamos, concorrência. Era uma das duas propostas recebidas pela CBA, a assinatura da outra é protegida por cláusulas de confidencialidade. A outra ponta da conversa tinha o pernambucano Waldner “Dadai” Bernardo, do Conselho Nacional de Velocidade da CBA, que no mês que vem vai assumir a presidência da entidade – venceu a eleição do mês passado por 10 votos a 7 do paranaense Milton Sperafico.

As duas semanas que se seguiram foram de ajustes dos termos; havia, afinal, uma série de exigências por parte da CBA, e de igual forma havia uma série de condições apresentadas pela Truck. Por parte da entidade, condições tratadas intramuros acerca de patrocínios, transmissão de televisão, administração, inscrições, relação com os pilotos. A empresa formalizou compromisso quanto à quase totalidade da lista. Em um dos itens, que diz respeito à participação da promotora como dona de equipes, Neusa apresentou argumentos que foram aceitos pela CBA. Os dirigentes veem conflito de interesses no fato de Neusa ser promotora do campeonato e manter uma equipe, a ABF, embora não haja lei desportiva alguma que a impeça disso. A CBA concordou com a sequência da prática – com a qual, aliás, a Fórmula Truck convive desde que nasceu. O contrato está confeccionado, tem vigência de um ano e será assinado logo após o feriadão entre a CBA e a Racing Truck.

Tomando-se por base o calendário de eventos que a Fórmula Truck anunciou no dia 25 de janeiro, faltam 23 dias para a primeira largada do ano. É o apertadíssimo prazo de que a direção da categoria dispõe para costurar um acordo com as ditas equipes independentes. A posição de várias delas é de que, diante das definições tardias, não há como viabilizar presença na pista sob o ponto de vista comercial. Falar em protelar o início do campeonato seria mero exercício de especulação, embora qualquer tabela de datas sempre apresente o asterisco de sujeição a alterações. E de especulação os perfis de Facebook de quem acompanha as corridas de algum modo já estão cheios.

“Não existe uma divisão da categoria. A Fórmula Truck era e continua a ser única. Mais de cem pilotos e várias equipes passaram pela categoria nestas mais de duas décadas. Uns entram, outros saem, mas a Fórmula Truck continua firme e nunca teve outra essência além daquela inicial, dada pelo fundador Aurélio Batista Félix”, dizia o comunicado de 31 de janeiro. É no que quer crer a considerável comunidade automobilística do Brasil. Arrebatar de volta os pilotos e as equipes que anunciaram debandada é a necessidade que urge. É possível? Claro que é. Juntos tudo é possível, já preconizava o slogan político do início dos anos 80. Há arestas a aparar? Há, talvez não sejam poucas, e essas são da conta de Neusa, de seus filhos sócios e dos pilotos e equipes, que precisam de uma merecida trégua dos especialistas de Facebook enquanto resolvem a vida. E que talvez devam manter a condução do assunto sob saudável discrição. Cá de longe, só me reservo o direito de torcer para que ao fim das contas dê tudo tão certo quanto possível. É com o que posso contribuir de momento, com a minha torcida.

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Osires Nadal Júnior

Locução em autódromo, estádio, rádio, tv, palestra, cerimonial, formatura. Pauteiro, reporter, produtor.

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