O futebol profissional de Campo Mourão não disputa os campeonato há algum tempo. Certamente deixa saudades a quem frequenta o Estádoi Roberto Brzezinski. Mas no início dos anos 2000 a história foi diferente. Surgiu a ADAP, com uma estrutura de centro de treinamento invejável, que chegou até a anunciar uma parceria com Zico e seu ZFC.

No entanto, as conquistas não foram tantas. Mas para alguns torcedores, a data de 18 de março é especial. Foi o dia em que a ADAP conquistou a vaga na semifinal do Campeonato Paranaense ao bater o Atlético, na Arena da Baixada, em 2006. O principal feito do futebol mourãoense nos últimos anos.

Nas redes sociais, os torcedores celebraram, como é o caso do relato do jornalista Diego Reis Pereira, que o Radiogol transcreve abaixo:

 

18 de março de 2006. Hoje fazem exatamente 10 anos. Um dia, uma tarde épica para o futebol profissional mourãoense. A aventura começou na verdade uma noite antes, no dia 17, uma sexta-feira, quando em torno de 40 torcedores embarcaram rumo à Curitiba, para apoiar a Associação Desportiva Atlética do Paraná, a ADAP, no segundo jogo das quartas-de-final do Campeonato Paranaense, contra o temido Clube Atlético Paranaense, na Arena da Baixada. No jogo de ida, em Campo Mourão, uma grande vitória, por 2 a 1, com gols de Batista e Marcelo Peabiru. Paramos na Churrascaria Marcão, em Guarapuava, na madrugada, e na estrada já víamos muitos torcedores mourãoenses descendo para Curitiba, facilmente identificados pelas buzinas. E a expectativa varava a noite, e logo pela manhã, todo mundo com cara amassada, de sono, paramos no Auto Posto Jardim Guarany, já praticamente no território curitibano, para um café da manhã. Chegando em Curitiba, na Avenida Silva Jardim, já conseguíamos ver o topo da Arena, ao longe, e a expectativa só aumentava.

A ADAP já estava na Capital, telefonamos para o técnico Gilberto Pereira, e falamos que já tínhamos fincado nossa bandeira por lá. Fomos a sede da Torcida Organizada Os Fanáticos, onde fomos imensamente bem recebidos por seus componentes, inicialmente pelo seu presidente, na época, o conhecido “Julião da Caveira”. Passamos o dia por ali, almoçamos no Restaurante Di Capri, ficava a algumas quadras ali da sede da TOF (Torcida Organizada Os Fanáticos). Já na saída para o estádio, o presidente da Fanáticos, muito gentilmente, pediu para alguns componentes da organizada nos acompanhar até no estádio, primeiro para ver a possibilidade de entrar com faixas, bandeiras, baterias e instrumentos dentro do estádio. A resposta foi negativa, mas novamente, representantes da torcida foram conosco até a entrada dos visitantes, na Rua Madre Maria dos Anjos.

Entramos, éramos uns 60, mais ou menos, ali no “espaço mourãoense”, contra um mar de atleticanos. No rádio, na Banda B, o então comentarista Caio Junior, hoje consagrado, que já havia sido técnico do Cianorte, participando de jogos memoráveis contra a ADAP, ressaltava qualidades do “Leão do Vale”, mantendo um equilíbrio nas opiniões com os demais membros da imprensa curitibana, que, logicamente, acreditavam em mais uma vitória do Atlético, que havia sido vice-campeão da Libertadores um ano antes e ia ter no jogo o atacante Dagoberto, que não jogou a partida de ida em Campo Mourão.

Mas no gol, o goleiro Cleber não jogava, e no seu lugar vinha o Thiago Cardoso. E quando entrou em campo, a ADAP já sentiu a energia daquela diminuta, mas barulhenta torcida mourãoense. Muitos, de nossa cidade, na verdade, assistiam o jogo no meio dos atleticanos, e reconhecemos inclusive alguns do outro lado, mas é evidente, não podiam ser muito efusivos. E começava o jogo, e o rubro-negro tradicional, que não perdia em sua Arena há 25 jogos, começava a sentir a força do valente Leão do Vale.

E nosso time peitou, sem medo, o Furacão, do presidente Mario Celso Petraglia, que assistia o jogo em seu camarote, um pouco a cima do local onde estávamos, como visitantes. Quem se destacava no jogo era o menino Angelo Versari, do Piquirivaí, e o goleiro Fábio. Não era o dia do Atlético, e logo aos 9 minutos, saímos na frente, com gol do zagueiro Alex Noronha, após uma falha do goleiro atleticano, rebatendo a bola esquisitamente em uma cobrança de falta. Aos 32, o Atlético empatava o jogo, com um gol do Rodrigão.

Mas a chama não se apagaria, pois aos 34, em um escanteio, o Angelo cobrou perfeitamente na cabeça do Dezinho, que fez nosso segundo gol. Só no primeiro tempo, o auxiliar Roberto Braatz, que foi para a Copa do Mundo 2010, na África do Sul, anulou dois gols do Atlético, alegando impedimento. E aos 39, mais um gol impedido do Atlético, momento em que os atleticanos reclamaram muito, e o técnico Vinicius Eutrópio e o goleiro reserva Cleber, os dois do Atlético, foram expulsos.

Para o segundo tempo, professor Gilberto Pereira veio com a ADAP para o campo sem alteração. O segundo tempo seguia monótono, sem as emoções do primeiro tempo. Mas o Gildásio, que era o xodó da nossa torcida lá na capital, chegou cara a cara com o goleiro adversário, já no final do jogo, e começamos a gritar “faz o gol”, “faz o gol”, e ele chutou, da direita para a esquerda, e a bola passou mansamente, chorosa, ao lado da trave. Seria o terceiro gol e a consagração do Gildásio.

E veio chuva, e que chuva, tomamos chuva, mas no final, ouvimos os aplausos e reverência da torcida do Atlético, em especial da Fanáticos, para nós torcedores. E o jogo acabou … Vibrávamos, chorávamos, parecíamos não acreditar que aquilo tudo era verdadeiro. Tínhamos vencido o gigante, nos dois jogos, o último dentro da sua temida Arena. No final do jogo, a imagem mais marcante foi o momento em que o lateral Elvis veio ali, escalou a mureta em que estávamos perto, e comemorou junto com a gente.

Lembro que o zagueiro Leandro Bernardi concedia entrevista a uma emissora, eu chamei a atenção dele, e ele comemorou conosco, nos deu total atenção. Voltamos para a sede da Fanáticos, novamente ótimo tratamento. Fomos embora, quando chegamos na Avenida Visconde de Guarapuava, as torcidas adversárias do Atlético, principalmente os torcedores do Coritiba, nos saudavam, buzinavam, gritavam, balançavam suas bandeiras nos prédios, algo que talvez nunca imaginávamos. Chegamos novamente ao Posto Jardim Guarany, para a janta.

Na TV, Mário Celso Petraglia falava. “Como podemos perder para um time chamado ADAP”.

Tudo bem, vencemos, voltamos pra casa felizes, e chegamos aqui em Campo Mourão 4 horas da manhã. O ônibus passou ali na Avenida Capitão Índio Bandeira, ainda estava cheio de gente, e passamos buzinando, comemorando junto com todos.

E a saga do Leão do Vale na Arena da Baixada estava completa. Esperaríamos daí o Coritiba, na semifinal, que se classificou ao eliminar o J. Malucelli. O primeiro jogo seria em Curitiba, e o segundo, em 29 de março, no dia do meu aniversário, em Campo Mourão.

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