Visão de piloto

Visão de piloto

Luc Monteiro

Quando comecei a me envolver diretamente com esse negócio de corrida de carros, no fim do ano passado, fiz um comentário que acabou virando discurso recorrente. É claro que resolvi participar das corridas, e aqui me refiro a estar dentro do carro, por diversão, é um fascínio comum a qualquer um que frequente autódromos por compromisso ou por lazer. Mas falei a alguém, e repeti isso várias vezes, que estando dentro da pista algumas vezes teria condições de avaliar melhor as situações das corridas dos campeonatos que narro pela Band ou pelo Bandsports.

Claro que essa condição seria bem mais protuberante se eu tivesse uma dose mínima do talento que têm os integrantes dos grids que costumo narrar. Mas estando lá no fundo da fila dá, sim, para ter uma noção um pouquinho melhor da encrenca que esses doidos enfrentam a cada mês, ou a cada três semanas. A cada vez que entro numa cabine de narração, enfim. É um privilégio dar pitacos sobre uma corrida de carros sabendo um pouquinho mais de perto como é a confusão olhando lá de dentro. Privilégio que lendas como Barão Fittipaldi e Edgard Mello Filho exerceram com maestria. E condição de que, talvez poucos saibam, o bróder Sérgio Maurício, do SporTV, também usufrui.

Uma das lições que tive na prática participando de corridas depois de aprendê-la em tese, neste caso com o diretor de provas Sérgio Berti, foi a de que nem sempre o piloto que é chamado ao terceiro andar da torre de controle para dar explicações fala a verdade. Não porque minta. Mas por ter em mente uma situação da maneira como ele viu. O exemplo que o Sérgio costuma dar é simples. Há um incidente envolvendo dois pilotos. O primeiro é chamado pelos comissários desportivos, dá sua versão; o segundo é chamado, faz o mesmo. Depois chamam-se os dois juntos e mostra-se a eles na TV a imagem do incidente. E os dois veem que estavam equivocados. Nenhum deles mentiu deliberadamente. Cada qual tinha sua verdade, que não condizia exatamente com a, hã, verdade verdadeira.

No último fim de semana tive a oportunidade, inédita para mim, de participar de uma corrida em Interlagos. Correr em Interlagos, algo tão corriqueiro a centenas de amigos meus, era algo que frequentava minha lista de ideias malucas desde a adolescência (estou longe do eixo paulista, é sempre bom lembrar). Formei dupla com o Caíto Carvalho, que é gente da nova safra de pilotos aqui de Cascavel, e com ele revezei um dos carros da equipe do Wilton Pena, a PaceCar Motorsport, na oitava etapa do Paulista de Marcas & Pilotos. Inscrevemo-nos na categoria Novatos. Caíto chegou a figurar em terceiro lugar na categoria, levou pancada, saiu da pista e foi sexto o colocado na primeira corrida, no sábado – trouxe um trofeuzinho para casa, o que é sempre bom. Eu, na de domingo, tive um desempenho menos digno de nota. Fiquei em 21º na geral, em décimo na categoria, num grid com 36 carros.

O fim de semana de macacão em Interlagos me trouxe outra experiência inédita: a de envolvimento em um acidente. Era fim da corrida de domingo, faltavam umas três ou quatro voltas. Saí da Junção atrás do carro do Jefferson Hubner. Naquele ponto ele ultrapassou o Rogério Cruzeiro e eu acompanhei a manobra. Uma vez tendo ultrapassado o Cruzeiro, vi condição de passar também pelo Jefferson, que já havia parado para trocar um pneu furado e tinha volta de desvantagem. No Café, ele assumiu a linha intermediária da pista. Vi espaço pela esquerda para ultrapassar e tentar alcançar o pelotão que estava à frente. Não fazia a mínima ideia da posição em que estava na corrida, imaginava que sétimo ou oitavo, e se conseguisse passar mais alguém poderia arrebatar um trofeuzinho igual ao do Caíto.

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Estávamos exatamente contornando o Café, eu por dentro e o Jefferson quase pelo meio da pista, quando me aproximei definitivamente para tentar o bote. Foi quando ele, seguramente sem ter notado minha presença ali, fechou para a esquerda. Houve o toque, o carro dele atravessou diante do meu, rodou e bateu de traseira no muro ao lado direito da pista. Eu consegui seguir na corrida, com a frente do carro avariada. Quem frequenta os canais da internet seguramente já viu imagens do acidente gravadas pelas câmeras onboard. Eu mesmo postei a do meu carro. A do carro do Rogério, que estava logo atrás de nós, também já está circulando de celular em celular, de perfil em perfil.

São imagens que podem parecer contraditórias, inclusive. A da minha câmera, instalada dentro do carro, mostra claramente o movimento que o Jefferson faz para a esquerda. Fiquei sem ação. Houve quem dissesse que eu tinha total condição de evitar o acidente. Teria feito isso se notasse a aproximação a tempo; aliás, passei a corrida toda aliviando o pé para evitar toques com os colegas de pista – esses acidentes, além de doer no bolso, podem machucar, é a primeira coisa que tenho em mente. A da câmera instalada no teto do carro do Rogério suscita a impressão de que me aproximei e bati deliberadamente no carro do Jefferson, o que é definitivamente errado supor ou concluir.

Jefferson, a quem eu não conhecia (na verdade ainda não conheço) veio falar comigo assim que a corrida terminou. Integrantes da minha equipe haviam me alertado que ele estava furioso comigo – sei, de tantos casos que já testemunhei, o quanto ferve o sangue de um piloto de corridas após um episódio como esse. Veio falar comigo sem alterações ou excessos, exigiu explicações. Narrei-lhe o acidente tal qual minha visão, ofereci minha câmera para que ele examinasse as imagens como bem entendesse. Não fez questão. Perguntei se estava tudo bem com ele, respondeu que sim e disse desolado que a batida de minutos antes havia acabado com seu carro de corridas. Manifestei o quanto lamentei o episódio.

Lamentei de fato, e lamento até agora, pelo carro do Jefferson. Espero vê-lo em ação nas pistas de corrida o quanto antes. As imagens de diferentes câmeras suscitam impressões diferentes, também.  Às vezes o piloto tem de aliviar o pé do acelerador. Atenção aos espelhos retrovisores é sempre fundamental. Sangue frio na pista e fora dela, mais ainda. São mais lições que ficam e que se reforçam para as corridas que virão – esteja eu amarrado ao banco-concha ou na cabine de narração.

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